Verbetes · psicologia analítica
As máscaras da floresta
Os conceitos de Jung, explicados e ligados entre si
Cada verbete explica um conceito do jeito mais simples que ele permite e aponta para onde ele se liga. Dentro dos ensaios, o termo em anil, com um ?, abre o verbete sem você sair da leitura.
110 verbetes


Psique e topologia
máscara ai (anil) · inconsciente · 12 verbetes
Psiquetambém: SeeleO todo da vida psíquica, consciente e inconsciente. Para Jung, muito maior do que a consciência.
PersonalidadeA pessoa inteira, consciente e inconsciente, e também a obra de uma vida: tornar-se quem se é.
ConsciênciaA relação dos conteúdos psíquicos com o eu: aquilo de que sabemos, sempre estreito e seletivo.
Eu (ego)também: ego, euO centro do campo da consciência: um complexo entre outros, com a sensação de continuidade e de identidade consigo mesmo.
InconscienteTudo o que é psíquico mas não está ligado ao eu. Um conceito-limite: só o conhecemos pelos seus efeitos.
InconsciênciaO estado de não saber de si: a condição de origem da psique, da qual a consciência se separa aos poucos.
Inconsciente pessoalA camada mais superficial do inconsciente: o que foi vivido e esquecido, reprimido ou percebido sem atenção.
Inconsciente coletivoA camada mais profunda da psique, comum a todos: não vem da experiência pessoal, mas de predisposições herdadas.
Almatambém: imagem da almaEm Jung, a palavra tem mais de um sentido: a psique inteira, a atitude voltada para dentro ou a figura da anima.
EspíritoNão é o intelecto: é uma força viva e autônoma, que Jung descreve como consciência intensa unida à emoção.
CorpoA outra face da psique: para Jung, corpo e alma dependem um do outro, numa unidade que ninguém sabe explicar.
Instintotambém: pulsãoUm padrão herdado de comportamento, comum a todos, com um lado dinâmico (o impulso) e um lado formal (o arquétipo).
Figuras e constelações
máscara fuji (glicínia) · sonho e anima · 14 verbetes
PersonaA máscara social: um compromisso entre o indivíduo e a sociedade sobre aquilo que alguém parece ser.
SombraA parte da personalidade que não queremos ver em nós: o inferior, o recusado, que costumamos enxergar nos outros.
AnimaA figura feminina do inconsciente do homem: uma ponte entre a consciência e o inconsciente.
AnimusA figura masculina do inconsciente da mulher; Jung a liga sobretudo às opiniões que pensam pela pessoa.
SizígiaO par, a união de masculino e feminino: em Jung, o casal anima e animus e o modelo de todo par de opostos.
ErosO princípio da relação: o que junta, liga e aproxima. Não é sexo nem sentimento.
LogosO princípio do distinguir: discriminar, julgar, reconhecer. A clareza da consciência, não o simples raciocínio.
Si-mesmotambém: self, SelbstA totalidade da psique, consciente e inconsciente, e o seu centro. É a meta da individuação.
Grande Mãetambém: arquétipo maternoO arquétipo materno: a mãe que nutre e a que devora, duas faces de uma mesma figura.
Complexo maternoO complexo que se forma em torno da mãe: a experiência pessoal carregada pela força do arquétipo materno.
Puer aeternustambém: puer, eterno adolescenteO eterno menino: o lado infantil da personalidade e um jeito de não pousar na vida.
HeróiA figura mítica que enfrenta o monstro e renasce: a imagem da consciência que luta para se libertar do inconsciente.
O femininoEm Jung, mais do que a mulher: uma qualidade do inconsciente, da relação, da matéria e de muitos símbolos.
Anthropostambém: homem primordialO homem primordial dos mitos, de dimensão cósmica: para Jung, uma imagem do si-mesmo.
Tipologia
máscara shiro (branca) · persona · 20 verbetes
Tipologiatambém: tipos psicológicosA teoria dos tipos psicológicos: as pessoas se orientam de modos típicos, combinando uma atitude e uma função.
Tipo psicológicoUm padrão abstrato que reúne o que muitas pessoas têm em comum: uma atitude combinada com uma função dominante.
AtitudeA disposição habitual da psique para reagir numa certa direção: para o objeto ou para o sujeito.
Introversãotambém: introvertidoA atitude em que o interesse se volta para o sujeito: o que decide é a resposta interior, não o objeto.
Extroversãotambém: extrovertido, extraversãoA atitude em que o interesse se volta para o objeto: o mundo de fora é o que orienta e decide.
As quatro funçõestambém: funções psicológicasPensamento, sentimento, sensação e intuição: os quatro modos pelos quais a consciência se orienta.
Função superiortambém: função principal, função diferenciadaA função mais desenvolvida e confiável de uma pessoa, a que ela usa para enfrentar o mundo e que define o seu tipo.
Função inferiorA função menos desenvolvida, oposta à dominante: escapa ao controle da vontade e é a porta de entrada do inconsciente.
PensamentoA função racional que diz o que uma coisa é, ligando os dados por meio de conceitos.
SentimentoA função racional que avalia: diz quanto uma coisa vale. Não é emoção nem sentimentalismo.
SensaçãoA função irracional que percebe o que está presente: a percepção da realidade como ela é.
IntuiçãoA função irracional que percebe por vias inconscientes: capta as possibilidades de uma situação, de onde vem e para onde vai.
Pensamento introvertidoO tipo que pensa a partir da ideia interior: busca o aprofundamento, não a ampliação. O exemplo de Jung é Kant.
Pensamento extrovertidoO tipo que pensa a partir dos fatos e de uma fórmula objetiva, que vira a medida do certo e do errado. O exemplo de Jung é Darwin.
Sentimento introvertidoO tipo de sentimento intenso e pouco visível: “as águas mansas são as mais profundas”.
Sentimento extrovertidoO tipo que sente de acordo com os valores aceitos à sua volta: o sentir adequado à situação.
Sensação introvertidaO tipo que percebe pela impressão subjetiva que as coisas deixam: vê o mundo como se fosse por olhos muito antigos.
Sensação extrovertidaO tipo mais realista de todos: vive dos fatos concretos e do prazer do momento.
Intuição introvertidaO tipo visionário, voltado para as imagens interiores: Jung diz que sem ele Israel não teria tido os seus profetas.
Intuição extrovertidaO tipo com faro para o que está nascendo e promete futuro, que abandona a situação quando ela deixa de ter possibilidades.
Dinâmica psíquica
máscara aka (vermelha) · afeto · 13 verbetes
Energia psíquicaA intensidade dos processos psíquicos: o que dá valor a um conteúdo. Jung também a chama de libido.
LibidoPara Jung, a energia psíquica em geral, sentida como desejo e anseio, e não só a energia sexual.
AfetoUm estado de sentimento intenso, acompanhado de alterações no corpo, que perturba o curso das ideias. Jung o usa como sinônimo de emoção.
EmoçãoUm acontecimento que nos toma: um afeto forte que altera o corpo e tira o eu do controle.
VontadeA parte da energia psíquica que está à disposição da consciência, pouca mas preciosa.
ConflitoA tensão entre duas tendências opostas da psique; quando uma tenta suprimir a outra, abre-se o caminho da neurose.
Os opostostambém: pares de opostosOs pares de contrários que estruturam a psique: sem a tensão entre eles não há energia nem vida.
Compensaçãotambém: compensatório, autorregulaçãoA autorregulação da psique: o inconsciente equilibra a unilateralidade da consciência, trazendo o que ficou de fora.
Regressãotambém: progressãoO recuo da energia psíquica para estágios anteriores diante de um obstáculo; pode ser fuga, mas também o caminho da renovação.
Repressãotambém: recalqueO mecanismo que tira da consciência um conteúdo incompatível com ela, produzindo esquecimento.
DissociaçãoA cisão da psique em partes que funcionam separadas. É uma tendência natural da psique e, no extremo, a base da neurose.
NeuroseUma desunião consigo mesmo: a personalidade se cinde porque a atitude consciente se afastou demais do inconsciente.
AdaptaçãoO ajuste mútuo entre a pessoa e o que a cerca, voltado para o mundo de fora e também para as exigências interiores.
Mecanismos do complexo
máscara kuro (negra) · sombra · 9 verbetes
Complexotambém: complexo autônomoUm conjunto de ideias e imagens unido por uma forte carga emocional, que ganha autonomia diante do eu. Não só temos complexos: eles nos têm.
ConstelaçãoO momento em que uma situação de fora ativa um complexo: os conteúdos se juntam e a pessoa passa a reagir de um modo já definido.
Projeçãotambém: projetarO deslocamento involuntário de um conteúdo inconsciente para fora: passamos a vê-lo num objeto ou numa pessoa.
IdentificaçãoO estado em que a pessoa se confunde com algo que não é ela, um papel, outra pessoa, um arquétipo, sem perceber.
IdentidadeUma igualdade inconsciente entre sujeito e objeto: o estado em que a pessoa ainda não se distingue do outro.
InflaçãoA expansão da personalidade além dos próprios limites, quando o eu se identifica com um conteúdo maior do que ele.
AssimilaçãoA incorporação de um conteúdo por outro; em Jung, sobretudo a interpenetração entre conteúdos conscientes e inconscientes.
Autonomiatambém: automatismoA capacidade de um conteúdo psíquico de agir por conta própria, sem obedecer ao eu.
TransferênciaA projeção de conteúdos inconscientes sobre o analista: um caso especial de projeção, que é também o campo do tratamento.
Processo e transformação
máscara kin (dourada) · si-mesmo · 12 verbetes
Individuaçãotambém: processo de individuaçãoO processo de tornar-se quem se é: um indivíduo inteiro, distinto do coletivo, em relação com o si-mesmo.
IntegraçãoO trabalho de trazer para a consciência conteúdos que estavam no inconsciente, reconhecendo-os e assumindo-os.
DiferenciaçãoO ato de distinguir, separar o que estava misturado. Para Jung, é a essência da consciência.
TotalidadeA pessoa inteira, consciente e inconsciente. Em Jung, é sobretudo o nome do si-mesmo e a meta da individuação.
UnidadeA coesão da personalidade, nunca garantida: a psique é múltipla, e a unidade é uma conquista que o si-mesmo expressa.
Função transcendenteA função que faz a travessia de uma atitude para outra, unindo consciência e inconsciente num terceiro elemento, o símbolo.
TransformaçãoA mudança profunda da personalidade, meta da análise; e também a transformação da energia psíquica de uma forma em outra.
RenascimentoUm dos motivos mais antigos da humanidade: morrer para uma forma de vida e nascer para outra. Na psique, é o símbolo da mudança de atitude.
SacrifícioTornar sagrado: renunciar a algo que se sente como próprio. Para Jung, todo sacrifício é, em algum grau, sacrifício de si mesmo.
EncarnaçãoDeus que se torna humano; em linguagem psicológica, um conteúdo inconsciente que entra na consciência e se realiza numa vida.
DestinoO que nos acontece como se viesse de uma vontade maior do que a do eu; para Jung, também é a expressão de nós mesmos.
MorteO fim da vida e também a meta para a qual ela tende; no plano simbólico, a passagem necessária para toda transformação.
Imagem, símbolo e tempo
máscara sakura · o efêmero · 14 verbetes
Arquétipotambém: imagem primordial, psicoideUma forma herdada e vazia da psique, que organiza imagens e comportamentos típicos; só a conhecemos pelas imagens que ela produz.
ImagemA forma em que a psique se apresenta à consciência. Para Jung, vivemos diretamente num mundo de imagens.
SímboloA melhor expressão possível de algo ainda desconhecido. Não é um sinal de algo que já se sabe.
FantasiaA atividade imaginativa da psique, onde consciente e inconsciente, sentimento e pensamento se encontram numa imagem viva.
Imaginação ativaO método de Jung para dar forma às imagens do inconsciente acordado: deixar que elas vivam e se relacionar com elas.
SonhoUm produto natural do inconsciente, que mostra a situação psíquica como ela é; quase sempre compensa a atitude consciente.
MandalaO círculo mágico: uma imagem de ordem em torno de um centro, que Jung entende como símbolo do si-mesmo.
QuaternidadeA estrutura de quatro partes que exprime a totalidade: quatro funções, quatro elementos, quatro direções.
TrindadePai, Filho e Espírito Santo: para Jung, a forma cristã de um arquétipo da tríade, que simboliza um processo de amadurecimento.
ParadoxoUma verdade que só se diz com duas afirmações contrárias. Para Jung, é a linguagem própria do si-mesmo e dos arquétipos.
CaosA matéria informe do começo, de que tudo nasce: na alquimia, a prima materia; na psique, o estado de desordem que antecede uma nova ordem.
SincronicidadeA coincidência significativa entre um estado interior e um acontecimento exterior, sem relação de causa e efeito.
TempoPara Jung, o inconsciente é atemporal; o tempo que importa na psique é o qualitativo, o momento certo, o kairós.
NaturezaO que é espontâneo e não inventado pela consciência: para Jung, a psique, o sonho e o arquétipo são natureza.
Religião
máscara koke (musgo) · instinto · 6 verbetes
Imagem de DeusPara a psicologia de Jung, a imagem de Deus: o valor psíquico supremo, o que tem o poder mais forte sobre a vida de alguém.
CristoPara Jung, Cristo é, psicologicamente, um símbolo do si-mesmo: a imagem cristã da totalidade.
Demôniotambém: diaboUm fator autônomo que perturba o eu: o que antes se chamava demônio, Jung chama hoje de complexo.
O maltambém: privatio boniPara Jung, uma realidade, e não só a ausência do bem; bem e mal são opostos que se condicionam.
Gnosetambém: gnosticismoO conhecimento de Deus por experiência direta; para Jung, os gnósticos antigos foram precursores da psicologia do inconsciente.
AmorUma das grandes forças da psique: função de relação e, ao mesmo tempo, um estado de emoção que se parece com a imagem de Deus.
Alquimia
máscara kuro (negra) · sombra · 8 verbetes
AlquimiaPara Jung, mais do que uma química primitiva: uma prática de transformação interior que projetava na matéria os processos do inconsciente.
Prima materiaA matéria-prima da obra alquímica, de mil nomes e sem valor aparente; psicologicamente, a situação psíquica de onde a transformação parte.
NigredoO negrume: a primeira etapa da obra alquímica, de dissolução e melancolia, que Jung liga ao encontro com a sombra.
Mercuriustambém: MercúrioO espírito transformador da alquimia, duplo e capaz de tudo; para Jung, uma imagem do próprio inconsciente.
Lapistambém: pedra filosofalA pedra filosofal, meta da obra alquímica; para Jung, um símbolo do si-mesmo.
Coniunctiotambém: conjunçãoA união dos opostos na alquimia, simbolizada pelo casamento do rei e da rainha; para Jung, a meta e o mistério da transformação.
MatériaO outro lado da psique: para Jung, matéria e psique talvez sejam dois aspectos de uma mesma realidade.
IncestoPara Jung, o tema do incesto é antes um símbolo de regressão e de renascimento do que um desejo literal.
Método
máscara shiro (branca) · persona · 2 verbetes